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Cannes
terça, 15/5/2001
Super
lotada a coletiva de imprensa de Godard, com uma platéia de críticos
e jornalistas reverentes, diante da quantidade de pensamentos
inteligentes, ou mesmo sarcásticos desse autor e pensador do
cinema. Falou sobre o tema “memória” e disse: “a memória não
tem nenhuma obrigação de sobreviver. Agora, o direito à memória
deve sempre existir”.
Perguntaram sobre o que ele teria contra Steven Spielberg: “contra
o homem, nada, nunca o conheci, mas contra os seus filmes eu teria
que me sentar com vocês num cinema, com qualquer um dos seus
filmes, e irmos assistindo, cena por cena, e parando em todas as
cenas (risos) para discutirmos. Lembro de A Lista de Schindler, onde
ele faz com que de uma torneira de gás mortal saia uma água
purificadora. Ninguém tem o direito de fazer isso com a história”,
disse.
Defendeu o estilo do seu filme como a impressão que alguém tem ao
andar descompromissadamente pela rua, olhando para casas e janelas e
muros e árvores. Lembrou de Cannes no passado e mostrou-se
extremamente nostálgico com um festival que, para ele, não existe
mais. Um jornalista lembrou os 50 anos da revista Cahiers du Cinema
e Godard falou apaixonadamente sobre o porquê comentar o cinema nos
seus filmes, mas mais em papel. “Ninguém deve nadar na mesma água
duas vezes. Às vezes, sim, sinto vontade de pegar a caneta e
destruir algumas coisas. No entanto, não sou mais velho, isso era
algo que Truffaut fazia muito bem e eu concordava com ele. Tenho
medo de ser horrível com alguém e sentir-me mal com isso.
Ganhar a Palma de Ouro em 2001 foi uma possibilidade levantada por
outro jornalista. “Não vim para cá pensando nisso. Meu desejo é
mostrar meu último trabalho e ver que tipo de reflexão ele poderá
trazer. Acho Cannes uma boa vitrine porque não é o tipo de filme
que muita gente irá ver. Ficará restrito a salas minúsculas”,
disse feliz.
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